Como ter satisfação na vida (incluindo no trabalho!)

As pesquisas não mentem: para grande parte da população trabalhar é um saco. Algo que se faz para pagar as contas e só.

Se procurarmos minimamente no Google, encontraremos entre outros resultados, esses aqui:

- 7 em cada 10 profissionais brasileiros não estão satisfeitos com o seu trabalho e se sentem infelizes.

Fonte: IPOM – Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente, março de 2014

- 72% das pessoas não gostam do próprio trabalho e destes 18% estão ativamente “desengajadas”.

Fonte: Instituto Gallup, 2013.

- 80% dos trabalhadores brasileiros querem mudar de emprego até o ano que vem.

Fonte: Hay Group (2014)

- Apenas 13% das pessoas estão realmente engajadas no trabalho.

Fonte: Gallup (2014)

- Quase 50% estão insatisfeitos com o trabalho.

Fonte: Exame (2014)

Enfrentamos uma fase de insatisfação nas nossas atividades profissionais, que na verdade reflete a falta de realização que essas atividades nos trazem. Você já parou para se perguntar a razão disso?

Porque o nosso trabalho, de uns 30 ou 40 anos para cá adquiriu um sentido de ter sentido que não seja o de pagar as contas e sobreviver até o final do próximo mês?

Desde o século XIX, o mundo ocidental vem passando por lentas mudanças no cenário econômico e social que, resumidamente, culminaram na possibilidade de hoje, podermos escolher a nossa profissão e querer ter um sentido de propósito com ela. Há uns 200 anos atrás isso era impensável já que a maioria das pessoas trabalhava até 16 horas por dia para simplesmente ter o que comer e o que vestir! Ou seja, trabalhavam para pagar as contas.

Simples assim.

Esse cenário era potencializado pelo pensamento comum à época de que era o destino de nascer e morrer pobre, e o trabalho que se desempenhava era única, e exclusivamente, para aplacar a necessidade de sobrevivência. Para se ter uma ideia, nessa época, se você fosse uma mulher na Europa, uma das “profissões” disponíveis para você, além de dona de casa, seria a de extratora em uma mina de carvão, andando curvada durante 12 horas por dia em tuneis de 80 cm. Lentamente, esse cenário foi mudando ao passo que o mundo foi mudando. O desenvolvimento das áreas tecnológicas (sobretudo as Revoluções Industriais I e II), direitos humanos e política, possibilitaram a substituição do panorama profissional de destino e necessidade para liberdade e escolha.

O fato é: hoje podemos escolher o que fazer e, tão importante quanto isso, podemos alterar as nossas escolhas e mudar de trajetória quando quisermos – Ok, isso trouxe a baila dois novos desafios: o paradoxo da escolha: muitas opções de profissões, uma mais legal que a outra, o que nos deixa confusos e não sabemos qual delas devemos escolher e uma espécie de ideologia inversa a essa ideia: devemos ser assertivos nas nossas escolhas profissionais e conviver com elas para o resto de nossas vidas.

Dentro dessa realidade enfrentamos, basicamente dois grandes dilemas: escolher algo que nos dê sentido de realização e felicidade ao mesmo tempo que pague as contas das nossas necessidades básicas.

Os pilares de um trabalho com sentidoRelógio da satisfação

O pior castigo destinado a um homem é ter um trabalho ausente de utilidade e sentido. Mas o que é realmente um trabalho com sentido? Obviamente, “sentido” é algo pessoal, mas podemos afirmar que ter uma vida com sentido é formado por valores intrínsecos e extrínsecos.

Dinheiro e reconhecimento são valores extrínsecos, que tratam o trabalho como um meio para um fim, enquanto prazer, propósito e contribuição são intrínsecos. Pois, a recompensa é a própria atividade

Podemos pensar nesses valores como sendo forças essenciais na manutenção da motivação que faz com que prossigamos firmes nas nossas carreiras profissionais.

Mais importante do que identificar atividades que tenham estes cinco itens, é ter ciência sobre eles e decidir qual é o mais importante para você.

Veja, não é escolher “o valor mais importante para todo o sempre”. É escolher o que faz sentido para você agora.

Por exemplo, eu devo preferir um trabalho que me traga extrema felicidade e satisfação a um que me remunere muito bem, mas não apresente o mesmo nível de realização? Depende.

Para responder a essa pergunta, você tem que saber quais são as suas prioridades no momento, ter uma visão de realização pessoal o mais clara possível, para que a resposta, a mais natural e verdadeira possível, esteja alinhada com o seu real propósito de vida.

Calma, você não precisa ter todas as respostas, afinal, ninguém tem, mas você tem que estar disposto a ouvir aquela vozinha que diz que algo pode ser diferente.

Ao isolarmos os cinco pilares de um trabalho significativo, poderemos analisar cada um deles, os prós e contras e ter uma ideia de qual deles é o mais importante, ou mesmo escolher todos eles e ter uma vida valorosa em sua plenitude, transformando o seu potencial em realidade.

Dinheiro e uma vida boa

“O dinheiro é uma felicidade humana abstrata; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.”

– Arthur Schopenhauer.

Se você está no seu trabalho única e exclusivamente por causa do seu salário ou tem medo de ser demitido ou mesmo de procurar um emprego em que você ganhe menos e tenha menos benefícios, você tem o dinheiro como uma medida de significância. E não há nada de errado com isso, afinal o dinheiro é a motivação mais forte e mais antiga no âmbito do trabalho.

Infelizmente, descobriu-se que, à partir de uma determinada quantia de dinheiro, ele não traz mais felicidade e nem é um caminho certo ou mesmo seguro para se ter bem-estar ou mesmo plenitude. Segundo recentes pesquisas, quando se alcança um certo patamar de grana, onde as necessidades básicas não são uma preocupação, novos aumentos acrescentam pouco, se é que acrescentam algo, ao nosso nível de satisfação existencial.

Então porque queremos sempre mais?

O consumismo, característica intrínseca do mundo moderno, comprova que quanto mais temos, mais queremos. Nossas expectativas sobre ter aumentam exponencialmente para ter mais coisas, querendo replicar a sensação de euforia que tivemos ao comprar algo que muito desejamos, ou achávamos que queríamos. O mais incrível é que esse ciclo, naturalmente, não tem fim.

Nesse contexto, confundimos o ter com o ser. As mesmas pesquisas que mostram que felicidade não está diretamente ligada a quantidade de dinheiro que se tem, mostram que somos muito mais felizes através de experiências vividas e compartilhadas. Claro, algumas experiências, para serem vividas, devem ser pagas, mas aí entra a lógica de que dinheiro não traz felicidade: você quer viajar quando quiser ou acumular malas de dinheiro?

O dinheiro, de todos os pilares de uma vida satisfatória, é o mais fraco, mas é o que mais aprisiona as pessoas. Isso, porque grande parte delas vive com uma mentalidade de subsistência em um mundo abundante de oportunidades e liberdade.

Ou seja, a maioria de nós encara o trabalho como há 200 anos atrás.

Reconhecimento

Fama e glória, quem nunca quis um bocado? Assim como ficar rico, ter reconhecimento é o outro valor extrínseco da nossa lista e diz respeito a uma série de coisas, como vaidade, autoestima, inveja e reconhecimento social.

Reconhecimento diz respeito a nossa aceitação interna e externa.

Ao mesmo tempo em que queremos ser aceitos e não discriminados, queremos ter destaque em relação a algo.

Paradoxal, não?

Outro fato interessante sobre a nossa sede por reconhecimento é que ela, igualmente ao dinheiro, aumenta a medida que a temos em uma escala praticamente sem fim. Do ponto de vista profissional, agir esperando o reconhecimento dos outros é um tiro no pé. Imagine a seguinte situação: você é membro de uma família que tem como profissão base a medicina, sendo que desde os primórdios todos os homens da sua família são médicos. Isso conferiu aos membros da sua família um status social muito alto, afinal, o seu bisavô era médico, seu avô era médico seu pai e sua mãe eram médicos, inclusive se conheceram no hospital, e agora, você tem em seus ombros a responsabilidade de ser o mais novo médico da família.

Pena que a sua necessidade intrínseca de realização esta diretamente ligada a jogar basquete!

A melhor maneira de se aliar reconhecimento com satisfação é através do respeito que a própria atividade gera nos outros. Não importa o que escolha fazer, o que confere uma medida de valor e o porquê você faz e como você faz. Busque não apenas uma atividade em que você tenha status, mas sim uma atividade que permita que você obtenha respeito dos seus colegas pelo seu empenho, esmero, competência ou mesmo alegria de trabalhar. Isso pode significar evitar grandes corporações onde você é apenas o recheio de um baia, e os esforços individuais raramente são reconhecidos.

Prazer

Participação é a medida de profundidade de envolvimento entre a pessoa e a sua vida. Uma pessoa que participa da sua vida, esta totalmente focada naquilo que faz. Muitas vezes o envolvimento é tão grande que a pessoa parece transcender a realidade, esquecendo o tempo e tendo um constante estado de satisfação e bem estar.

A isso, eu chamo de prazer: ter o tesão de fazer algo apenas por fazer a atividade em si.

A essa sensação, o pesquisador Mihaly Csikszentmihalyi, da Universidade de Chicago, dá o nome de “fluxo” (“Flow” em inglês). Entramos em fluxo quando achamos atividades que requeiram o uso de nossos talentos e habilidades de modo desafiador. Se o nível de desafio for alto, ele pode se tornar desmotivador, uma vez que o objetivo possa parecer inalcançável. Por outro lado, o nível de desafio não pode ser baixo demais, justamente por não representar nenhum nível de dificuldade que atice as habilidades e talentos inerentes do individuo. Para que haja o flow, o nível de desafio deve ser alcançável e ao mesmo tempo estimulante.

Segundo ele, sabemos quando estamos em fluxo, quando ao realizar qualquer atividade, sentimos as seguintes sensações:

– Ausência de esforço e sentimento espontâneo ao realizar a tarefa.

– Sensação e êxtase: O prazer e foco são tão grandes ao realizar a ação, que o individuo se sente fora da realidade cotidiana que o cerca.

– Foco: Estar completamente envolvido com o que você esta fazendo.

– Sentido de clareza: Saber o que precisa ser feito, quando e como.

– Saber quais das suas habilidades são adequadas para realizar a tarefa.

– Senso de serenidade: Não se preocupar com sigo mesmo, ter um sentimento de crescimento além dos limites do ego.

– Atemporalidade: a pessoa esta tão focada no presente, que as horas parecem passar por minutos.

– Motivação intrínseca: o que produz o fluxo, se torna a própria recompensa.

Do ponto de vista profissional, ter prazer por algo pode significar ter um enorme sucesso, em termos de acumulo de dinheiro e reconhecimento, uma vez que a atividade realizada tende a ter uma qualidade acima da média e continuamente apresenta um alto grau de inovação em detrimento das muitas horas dedicadas a ela.

Ou o contrário.

A paixão pela atividade pode fazer com que se trabalhe praticamente de graça, apenas pelo prazer em exercer a atividade. Um bom exemplo disso é Steve Wozniak.

Quais atividades você realiza com prazer? E como elas podem se relacionar de maneira sustentável com os outros quatro pilares de um emprego tesudo?

Propósito

A busca pelo engajamento e pelo prazer são esforços frequentemente solitários e solipsistas. A vida com sentido consiste em pertencer e servir a algo que você acredite ser maior que o eu, e a humanidade cria todas as instituições positivas que permitem isso: a religião, o partido político, a família, fazer parte de um movimento ecológico ou de um grupo de escoteiros.” – Martin Seligman, Florescer

Ter um propósito é acreditar em algo que esteja acima de você e assumir a responsabilidade de transformar essa visão em realidade. Ora, mas o que isso tem a ver com achar um trabalho que me traga felicidade e realização?

Tudo.

Tem tudo a ver.

Viver por um propósito significa atuar de maneira participativa na sociedade para que esse “algo” se concretize. Você pode ter vários propósitos durante a vida, como por exemplo: ajudar as pessoas a terem uma vida menos complicada, colaborar para que a cidade seja mais agradável e limpa, trabalhar arduamente para os processos sejam mais rápidos, trabalhar com inovação para acelerar o crescimento do pais e etc. Veja, dei alguns exemplos simples de propósitos para que você pense e comece a desenvolver o seu.

“Ok, e onde entra o meu trabalho nisso?”

Se o seu propósito for ajudar as pessoas a terem uma vida mais fácil, simples, você pode ser um vendedor de algo que realmente faça isso, ou mesmo trabalhe em uma área de uma empresa em que há gestão de conflito entre cliente X empresa e ajudar os clientes a resolverem o seu problema. Se você quer ajudar a criar um país mais ágil, você pode trabalhar com T.I e ajudar a resolver a morosidade técnica que permeia os nossos sistemas.

Geralmente, um propósito sustentável e engrandecedor está ligado a gerar valor para alguém ou meio em que se vive. Um propósito ligado ao entretenimento próprio tende a não se sustentar e não gera nenhum tipo de legado construtivo – é apenas mais um objetivo egoísta, que serve muito mais para entreter do que para construir, realizar algo.

Quando as coisas estão difíceis, é no nosso propósito que nos apegamos, pois o nosso propósito reflete uma das várias facetas do nosso interior. Se você trabalhar com algo que acredita, não importa o quão dura seja a realidade, o seu comprometimento com você mesmo fará com quem você ache uma saída para superar os obstáculos. Seja você um vendedor que quer ajudar os outros a ter uma vida melhor, um funcionário público que tem o dever de zelar pelo bom funcionamento da sua seção, o programador PHP que adora construir coisas novas, ou a cabelereira que faz com que as mulheres tenham momentos de beleza extrema.

Não importa como você expõe ou dá vida ao seu propósito, desde que você tenha um.

Nota do autor: Dá mesma forma que as pessoa devem ter um propósito em suas carreiras, as empresas devem ter um propósito em sua ações. O número alto de demissões, descontentamento, absenteísmo, são resultado do desalinhamento de valores e propósito das empresas e dos seus colaboradores. Fala-se muito em liderança, mas no sentido estrito do termo, a liderança se caracteriza por dois fatores: uma crença e seguidores. Hoje, essa crise de liderança é fruto da ausência de pessoas com propósito, e por isso, os chamados líderes, são em sua grande maioria “chefes”. Pessoas capacitadas tecnicamente, mas sem um senso de propósito que seja compartilhado e aceito pelos demais.

Contribuição

Gerar valor. Ser importante para a existência de alguém. Deixar uma marca.

Contribuir, nada mais é do que construir algo útil ao outro, de maneira a colocar os seus valores em prática.  Contribuir ou “fazer a diferença” é um misto de reconhecimento, propósito e prazer, pois, se faz algo tendo alguma crença como base ao mesmo tempo em que se obtém algum prazer nisso e se recebe o reconhecimento dos outros.

Pode parecer difícil encaixar esse pilar no seu dia-a-dia, mas pense por um momento: onde os seus valores, talentos e habilidades encontram as necessidades do mundo?

Isso é contribuição genuína.

Gerar valor é o meio mais certo de sempre ter um trabalho à sua disposição. O mercado consumista e voraz que temos hoje não quer alguém que tenha propósito, que tenha prazer no que faz, que vise o lucro. Ele deseja alguém que contribua para o seu bem estar. A essas pessoas, não importa quem sejam, as portas estarão sempre abertas.

Conclusões

Ter uma carreira realizadora e com propósito não é impossível, mas não é simples. Antes de mais nada, é necessário saber o que é mais significativo para você. Eu listei cinco esferas, mas podem ter mais, podem ter as suas esferas, o que importa para você. Descubra-as.

Como exercício, sugiro que pense em cada um dos pilares que eu listei, e pense em como eles poderiam se conectar. Claro, não é tarefa das mais simples, mas comece, pense um pouco sobre ter uma vida rica e plena. Eu já disse isso aqui, mais de uma vez, mas pessoas estão morrendo porque você está jogando um jogo pequeno.

Se você sobreviveu até aqui, fazendo o que não te dá tesão ou orgulho, imagine a vida que esta a sua espera?

Imagine quem você será fazendo aquilo em que acredita, estimulando os seus talentos e habilidades, ajudando os outros E ainda sendo pago por isso?

Formado e pós graduado em marketing, trabalhou na área até cansar de viver uma vida de bosta sem sentido algum e decidir largar tudo pelo seu sonho de ajudar as outras pessoas a terem uma vida tesuda através do autoconhecimento e ação. Além disso, gosta de negócios, esportes, cerveja, charutos e todo o tipo de coisa nerd. É co-fundador do Geração de Emprego e é headhunter profissional e por vocação.

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